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O som das chaves sendo colocadas na mesa quebrou o silêncio do apartamento. Já passava das oito mas aquilo era considerado cedo para ela. Ouvi o som agudo dos tênis no assoalho e fiz o trajeto até o quarto do lado mentalmente. Já tinha visto aquela cena tantas vezes que não precisava estar lá para saber que ela estava colocando a bolsa na cadeira de sempre, tinha passado a mão pela roupa de cama para tirar qualquer amassado sobrevivente e pendurado o moletom impecavelmente branco no cabideiro. As chaves estavam no criado mudo perto da porta, do lado dos controles da televisão e da sky, nessa ordem. Os bancos da mesa estavam todos perfeitamente alinhados e os quadros na parede marrom desconheciam o que era estarem tortos. O barulho de água caindo denunciava que ela já tinha entrado no banho e era minha deixa para sair do meu canto.
Caminhei silenciosamente até a cozinha e, enquanto minhas mãos trabalhavam, eu pensava no tanto que aquele lugar era cheio dela. Os livros na estante, organizados por escala de cor, denunciavam todo o seu amor por design. O quadrinho negro na porta da geladeira tinha uma checklist perfeitamente desenhada do que faltava comprar. O capacho da porta dizia "enjoy" e o resto da casa completava educamente, "please". Doses iguais de organização, aconchego e estilo. O conhecido arranhar da vitrola no vinil me despertou dos devaneios e segui de volta para o corredor.
A porta estava aberta, como se soubesse que eu chegaria. Parei na ali, sem falar nada e a observei, compenetrada com alguma coisa na tela do notebook. Ela costumava usar fones de ouvido mas desde que tínhamos achado aquela vitrola no centro, preferia tirar poeira de alguns discos antigos que comprava eventualmente. Talvez ela só estivesse fingindo não me ver ali, talvez estivesse ocupada demais para me falar qualquer coisa; não me importava. Entrei calmamente, coloquei a caneca de chocolate quente e o prato com um sanduíche na mesa, dando-lhe um beijo na cabeça.
As olheiras lhe davam um aspecto abatido, cutucando meu instinto de cuidado, porém eu sabia que aquilo era só reflexo de todo o seu esforço. Ela era daquelas pessoas que davam o melhor de si sempre, perfeccionista até onde não podia mais, extramente metódica... Para muita gente, defeitos. Aos meus olhos, qualidades. Passei as mãos pelos cabelos curtos uma última vez e virei as costas. Ela não era de muitas palavras, quase nunca falava sobre si. Sorte dela que eu sempre observei tudo com muita atenção. Eu não conhecia nem um terço daquela mente brilhante, mas sabia muito mais do que ela imaginava. Que continuasse assim.

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