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As luzes da cidade já começavam a se apagar quando Clara saiu do ônibus. Os cabelos lisos e pesados esvoaçavam com o vento frio, deixando o rosto quase infantil à mostra. Quase porque havia algo naquele olhar. Olhar de quem sabia o que queria, de quem carregava muita coisa no coração. Os braços pequenos cobriam o corpo enquanto andava, se escondendo do frio e e se reservando do mundo que lhe rodeava. Talvez se andasse de braços abertos, as pessoas lhe dessem mais crédito, lhe levassem à sério. Mas a que preço? Avistou o grupo de amigos reúnidos e respirou fundo, se aprontando para as mesmas exclamações de sempre. "Nossa, Clara! Não sabia que você era assim...", a frase já estava carimbada por todo o seu corpo, como folhas de um passaporte. Seu destino era sempre o mesmo; uma viagem para o fundo da sua mente, tentando entender o porquê da sua imagem ter se construído de forma tão rasa. O sorriso nos lábios pintados de roxo mascarava a falsidade daquilo tudo. Falsos julgamentos que Clara engolia sem dizer muita coisa. Ouviu silenciosamente as conversas, tentando absorver tudo o que conseguia, mas se pronunciando de forma muito pontual. Se poupava dos comentários chatos sobre sua ironia desmedida, suas roupas curtas, seu batom escuro... Era até divertido rir consigo mesma daquelas reações, mas sentia falta de alguém que de fato lhe enxergasse. Seus pés formigavam enquanto esperava do lado de fora. Seu coração ansiava pelo que existia atrás daquela porta dupla: Um mundo que era só seu, pronto para ser dançado. A música alta veio como entorpecente, daqueles que batiam tão forte que faziam esquecer até o próprio nome. Ela bebia a batida e inalava o ritmo, sentindo todas as suas amarras se soltarem, uma por uma. Não existia opiniões alheias; não existia fofura e bom senso; não existia a falsidade. Ali só existia Clara, na sua forma mais pura. Uma droga a ser consumida sem nenhuma moderação.

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