O despertador tocou em algum lugar no meu sonho. Eu sabia
que era hora de levantar e encarar mais um dia. Um banho bem tomado e uma
xícara de café forte já davam conta de eliminar os resquícios de uma noite mal
dormida, mesmo que por dentro eu continuasse completamente adormecida. Eu
entrei no ônibus às 6h45, assim como no dia anterior e no dia anterior àquele.
Sentei no mesmo lugar e olhei a mesma paisagem pela quinta vez naquela semana.
Aquela rotina que há alguns meses me provocava a sensação emocionante de estar
embarcando numa nova aventura simplesmente tinha se dissipado. Assisti aquelas mesmas aulas, ao lado dos meus
não-tão-amigos-assim, troquei algumas palavras com pessoas que me faziam feliz
por alguns minutinhos daquele meu dia cheio de vazio, andei de volta pra casa e
finalmente sucumbi. Minha cama já tinha o molde perfeito do meu corpo e por mais
que meus lençóis fossem coloridos e o quarto permanecesse impecavelmente
arrumado, tudo não passada de uma fachada. Senti a dor pulsar nas minhas
têmporas durante minutos que se arrastavam e finalmente levantei, apenas para
tomar um remédio e mais uma dose de cafeína. Olhei para minha mesa abarrotada
de lembretes, papéis e coisas para fazer; Tudo cuidadosamente ignorado ao longo
da semana. Ou do mês. Eu nem lembrava mais o que era tudo aquilo acumulado, mas
sabia que era a representação física do meu estado emocional. A voz da minha
mãe ecoava na minha mente, me mandando arrumar o quarto porque só assim eu
arrumaria as coisas dentro de mim. Alguns velhos costumes nunca morrem. 18h45.
As horas voam quando apenas as contemplamos passando. Meu celular estava
quieto. Ninguém mais se incomodava em me chamar para qualquer coisa nas sextas
à noite, afinal, eu quase nunca aparecia. No início era a falta de dinheiro que
se transformou em falta de disposição e acabou em falta. Faltavam amigos.
Faltavam bons momentos. Faltava um pouco de felicidade na minha vida rotineira.
Inesperadamente meu celular vibrou, me surpreendendo com uma oportunidade. Sorri
comigo mesma imaginando a força maior que rege o universo interferindo na minha
vida mais ou menos, me dando uma chance de viver a vida que eu sempre quis
viver quando mais nova. Algo dentro de mim pareceu encaixar-se, mesmo que o
frio na barriga indicasse o tanto que eu estava apreensiva em sair da minha
própria caverna. Suspirei e abri meu armário. Abandonei meus pijamas de sempre
e vesti algo que me fizesse sentir bem comigo mesma. Fiz o possível para ficar
apresentável e, enquanto fechava a porta do meu quarto, fiz uma promessa
silenciosa de que arrumaria aquela mesa no dia seguinte.
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