A música me fez abrir os olhos. "Thrift Shop" sempre fora uma das suas favoritas
para momentos de animação. Estávamos na estrada, aparentemente viajando, pois o
banco de trás do carro estava cheio de coisas. Agarrei um travesseiro pequeno e
pus ao redor do pescoço. Olhei para o lado e você estava lá; Com seus óculos
escuros, a camiseta de Star Wars que tínhamos comprado juntos, sua bermuda
xadrez que eu já tinha decorado até a quantidade de linhas... Te ver daquele
jeito me despertou algo engraçado. Um misto de saudade e conforto. Aquilo que
sentimos quando chegamos em casa depois de uma longa viagem. Algo me impedia de
falar, tocar e até me mover em sua direção. Você falava coisas e fazia
comentários que eu não conseguia discernir, mas fiquei satisfeita só em poder
te ver rindo e fazendo suas caras engraçadas. O carro estava impecavelmente
limpo, você devia tê-lo lavado antes de cairmos na estrada. Não me era familiar
estar ali, ao seu lado, enquanto você dirigia. Talvez aquela fosse a primeira
vez, talvez a primeira depois de muito tempo. Eu gostava. Eu parecia estar no
lugar certo. A paisagem do lado de fora era predominantemente verde e o dia
estava ensolarado, daqueles que eram quentes e tinham um céu azul sem nuvens.
Quis perguntar para onde estávamos indo, mesmo que não me importasse. Qualquer
lugar com você seria bom.
A melodia lenta de "Yesterday" começou a tocar e eu quis estender a
mão para o som e mudar a faixa, porém não pude. Aquela música sempre te deixava
triste, consequentemente também me deixava. Fechei os olhos novamente para não
ver a sua reação diante daquela letra melancólica e o som foi se afastando,
sumindo, se esvaindo da minha mente. Abri os olhos novamente e você
tinha sumido. Não havia mais estrada, nem carro, nem viagem e muito menos
calor. As paredes desbotadas do meu quarto dançavam com o silêncio profundo do
aposento frio. Fora a primeira vez que sonhei com você desde a mudança e o
sentimento de saudade se instalou no meu corpo por algum tempo. Tantas vezes
acordei com você ao meu lado que esqueci o que era acordar sozinha num dia de
sábado e não ter nada pra fazer, nem companhia pra sair. Percebi o quanto
estava vivendo pela metade. Órfã da melhor parte de mim; Fazendo as mesmas
coisas todos os dias, nada que conseguisse preencher esse vazio dentro do peito.
Levantei e risquei meu calendário. Cento e nove dias faltando para eu me tornar
inteira.

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