sábado, 16 de agosto de 2014

Infinita Highway


 A música me fez abrir os olhos. "Thrift Shop" sempre fora uma das suas favoritas para momentos de animação. Estávamos na estrada, aparentemente viajando, pois o banco de trás do carro estava cheio de coisas. Agarrei um travesseiro pequeno e pus ao redor do pescoço. Olhei para o lado e você estava lá; Com seus óculos escuros, a camiseta de Star Wars que tínhamos comprado juntos, sua bermuda xadrez que eu já tinha decorado até a quantidade de linhas... Te ver daquele jeito me despertou algo engraçado. Um misto de saudade e conforto. Aquilo que sentimos quando chegamos em casa depois de uma longa viagem. Algo me impedia de falar, tocar e até me mover em sua direção. Você falava coisas e fazia comentários que eu não conseguia discernir, mas fiquei satisfeita só em poder te ver rindo e fazendo suas caras engraçadas. O carro estava impecavelmente limpo, você devia tê-lo lavado antes de cairmos na estrada. Não me era familiar estar ali, ao seu lado, enquanto você dirigia. Talvez aquela fosse a primeira vez, talvez a primeira depois de muito tempo. Eu gostava. Eu parecia estar no lugar certo. A paisagem do lado de fora era predominantemente verde e o dia estava ensolarado, daqueles que eram quentes e tinham um céu azul sem nuvens. Quis perguntar para onde estávamos indo, mesmo que não me importasse. Qualquer lugar com você seria bom.

A melodia lenta de "Yesterday" começou a tocar e eu quis estender a mão para o som e mudar a faixa, porém não pude. Aquela música sempre te deixava triste, consequentemente também me deixava. Fechei os olhos novamente para não ver a sua reação diante daquela letra melancólica e o som foi se afastando, sumindo, se esvaindo da minha mente. Abri os olhos novamente e você tinha sumido. Não havia mais estrada, nem carro, nem viagem e muito menos calor. As paredes desbotadas do meu quarto dançavam com o silêncio profundo do aposento frio. Fora a primeira vez que sonhei com você desde a mudança e o sentimento de saudade se instalou no meu corpo por algum tempo. Tantas vezes acordei com você ao meu lado que esqueci o que era acordar sozinha num dia de sábado e não ter nada pra fazer, nem companhia pra sair. Percebi o quanto estava vivendo pela metade. Órfã da melhor parte de mim; Fazendo as mesmas coisas todos os dias, nada que conseguisse preencher esse vazio dentro do peito. Levantei e risquei meu calendário. Cento e nove dias faltando para eu me tornar inteira.

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