domingo, 29 de março de 2015

Era tudo vermelho


Existe uma garota. Que atravessa a minha rua todos os dias. Ela desfila em toda a sua elegância vermelha, com seus pés pequenos e apressados, sempre tão focados em chegar em algum lugar. Algum lugar desconhecido até pra ela. Ela veste o coração debaixo de vários moletons quando o clima é ameno, torcendo para que ninguém veja o quão grande ele é. Mas eu vejo. Ela resmunga sozinha sobre aleatoriedades da vida de vez em quando, esperando que ninguém esteja prestando atenção. Mas eu presto. Apenas querendo compartilhar todo aquele mundo abstrato, escondido dentro daquela mente brilhante. Ela fala sobre poesia e arte como se fosse gente grande, gente velha, mas quando ri... Ah, quando ela ri é como se tirasse dez anos das costas. Tem ar de independência, de bem resolvida, mas eu sei que tudo o que ela quer é alguém ao seu lado. Alguém que segure aquela mão pequena e caminhe pelas linhas tortas da vida. Alguém pra tomar um café numa tarde de sexta, que não se importe em ouvir suas loucuras, em rir de si mesmo, que goste do humor ácido e inteligente que ela tanto se orgulha. Ela mancha a borda da xícara de vermelho, a cor da paixão. Da paixão que ela tem por tudo o que faz. Da paixão que coloca em tudo o que toca. Cor do amor que guarda para si ou despeja nas páginas de qualquer caderno. Do amor que ela dá e não recebe em troca. Mas tá tudo bem. É o que eu digo para mim mesmo todas as vezes que a assisto passar pela minha rua. Eu diria para ela também, mas ela sabe. Ela tem cara de que sempre sabe das coisas. Ela sabe que um dia vai parar e me perguntar o que eu tanto olho. Ela sabe que vai bater na minha porta e eu vou estar com café fresco esperando por ela e por todos os seus sonhos escondidos no bolso. Ela sabe, ela sempre sabe.

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