sábado, 10 de outubro de 2015

A fruta da estação


Amora amava o amor. Em seu jeito mais puro e genuíno. 

Era apaixonada pelo cuidado, pela doçura e pelo se importar. Sem toda aquele drama e baboseira dos romances shakesperianos; para ela o importante era querer bem. Que sorte a minha de ter conhecido alguém tão delicada e dedicada. Menina-moça-mulher que sempre dava tudo de si no que fazia e, justamente por isso, fazia tudo de um jeito mais especial. Não existia quem não se sentisse bem perto de Amora, porque ela era uma dessas raríssimas pessoas no mundo que tinham luz própria. Todos se tornavam girassóis quando ela passava, acompanhando o brilho e o calor característico da fruta da estação. Era fácil sentir-se uma boa pessoa perto de alguém tão motivado e de bem com a vida. Se ela era assim sempre? Claro que não, mas isso lhe tornava humana e ainda mais incrível. Quantos de nós conseguem se projetar para o outro até nos seus piores dias? 

Amora era vermelho-rosa-cor-de-eu-te-amo, porque era isso que eu sentia vontade de falar sempre que a via.


Sem julgamentos


Pedro tinha o coração nos pés. Caminhava e deslizava pelo tablado de madeira com aquela certeza que só ele tinha. Dançava de olhos fechados e cada respiração acompanhava aquele caso de amor com a música que tocava. Volta e meia, no meio de meias-voltas, eu vislumbrava um sorriso bobo de gente apaixonada e eu ria, contagiada por tudo aquilo. Eu mal conhecia Pedro, mas eu confiava. Confiava ao ponto de fechar os olhos e deixar que ele me mostrasse o que fazer e, cá entre nós, eu sempre preferi fazer as coisas sozinha. Estar ali, rindo no meio de vários passos enrolados e atrapalhados me fazia sentir bem. Aquecia o coração finalmente encontrar alguém assim, leve. Depois de tanto tempo seguindo uma linha reta e comum, ele era porta aberta para altos e baixos. Pensei ali que nada que eu falasse talvez conseguisse transmitir o tanto que eu estava feliz por ter conhecido ele e todos os outros que vieram junto, por isso me contentei em elogiar.

A forma que ele dançava, o carinho que ele tinha com os amigos, a paciência em lidar com alguém irritantemente feliz e que fala pelos cotovelos (mas com conteúdo)... Eu, que sempre fui tão apaixonada por estrelas, talvez tivesse encontrado uma das mais brilhantes, bem ali na minha frente. Se ele sabia? Provavelmente não. Mas era assim mesmo; as pessoas mais bonitas eram aquelas que não tinham a mínima noção disso. 


domingo, 27 de setembro de 2015

A vida, o universo e tudo mais


Eu lembro claramente daquela primeira conversa sobre a vida que tive com meu pai. Aquela velha história da roda gigante; tem momentos que você sobe e tem momentos que você desce. Tão intrínseco isso ficou na minha mente que, até pouco tempo, eu não contestava esse fato. O problema dessa teoria é matemático, afinal, a roda gigante gira num período constante, num intervalo de tempo linear e uniforme. É impossível atrelar algo tão fluido e intempestivo quanto a vida, a algo tão perfeito e imutável. Na minha experiência própria (de quem tem lua em escorpião), cansei de acordar triste e terminar o dia de bem com o mundo, ou o contrário. Passei um longo período estando no topo, apreciando a vista, quando um fato pequenininho fez tudo mudar. 

Atenção: se você tem algum problema com crenças, talvez seja melhor você parar de ler porque estamos prestes a entrar em algumas questões existenciais aqui. 

Eu, pessoalmente, acredito que existe algo que rege o universo. Não entrando no mérito de destino ou algo do tipo, mas algumas vezes eu também duvido da existência da palavra "coincidência". Veja bem, cada homem produz cerca de 200 milhões de espermatozóides numa relação sexual, ao passo que uma mulher possui aproximadamente 500 mil óvulos ao longo da vida. Existem 7 bilhões de pessoas no mundo e, num dado momento, seus pais se conheceram, um espermatozóide e óvulo específicos se juntaram e deram origem a você, um ser com características únicas. O quão improvável é isso, estatísticamente falando? Podia ser outra pessoa, mas é você.

Dica: pesquisa um pouco sobre teoria do caos e movimento browniano. É de endoidar a cabeça, sério.

Astrologicamente (lembra das crenças?), no momento em que você nasce, toda a energia dos planetas alinhados naquela hora exata, de acordo com o lugar do nascimento, se mescla com a sua própria energia através do princípio da sincronicidade e voilà, temos toda uma cadeia de dados planetários que te dão um poder de autoconhecimento inestimável. É científicamente comprovado que a lua move as marés e que se ela mudasse um pouquinho só o seu movimento, todos morreríamos com as catástrofes. Por qual motivo isso não poderia ser válido para pessoas também? 

Já parou para pensar em como todos estamos ligados em rede? Que, mesmo sem sabermos, podemos afetar a vida de alguém? Que tal imaginar que aquele cara na lanchonete ouviu sua piada e passou para os próprios amigos? Ou que alguém ouviu você contar uma história no ônibus e se inspirou completamente nela para fazer algo? Talvez você tenha cruzado com alguém na rua que te achou a pessoa mais linda do mundo por alguns segundos e comentou isso nas próprias redes sociais. Somos estrelas colidindo umas com as outras todos os dias.

Eu não sei porque senti a necessidade de escrever sobre isso, mas me assusta ver pessoas com a mente tão fechada ao ponto de ignorar a quantidade infinita de interrogações que existem nesse universo. Quero dizer, é bem egocêntrico da nossa parte pensar que estamos sozinhos no meio da via láctea, que somos absurdamente desenvolvidos e que nossa vida se baseia basicamente em nascer, viver (sendo bem sucedido, óbvio), se reproduzir e morrer. A vida é muito mais do que só uma roda gigante. A vida pra mim é quase um buraco negro que todo dia me transporta pra um canto diferente da minha mente. Talvez valha a pena parar um pouquinho, pensar sobre essas coisas e se quiser conversar sobre, é só chamar.


sexta-feira, 4 de setembro de 2015

"[...] nem brisa nem a poesia, nem a lua que surgia me fez esquecer você."


Eu te vi do outro lado do picadeiro. Foi o bastante para sentir tudo dentro de mim desmoronar. "E lá vamos nós de novo". A conhecida sensação de descontrole me invadiu, como sempre. Senti ódio de mim mesma, ódio do meu coração que se encantava com um sorriso torto distante. Ele não seria o primeiro (e muito menos o último) a invadir meus pensamentos e depois ir embora. Era sufocante a sensação de imaginar pequenas possibilidades. A ideia do nós sempre chegava violentamente, destruindo tudo o que tocava, e eu me afogava. Engolia paixão, respirava esperança, engasgava com a impossibilidade, tossia tristeza. Uma vez, duas vezes, mais uma vez. Eu me conhecia bem o suficiente para prever tudo isso. No momento em que eu te vi, eu soube. Seu nome, como seria nosso primeiro beijo, os filmes que veríamos juntos, as tardes na Praça da Liberdade. Eu sabia mais ainda o quanto pensar nisso me machucaria, afinal, eu era formada e graduada em dez tipos diferentes de autossabotagem. Meus pensamentos eram embalados pelo ritmo lento e compassado, a letra eu conhecia de cor. Sorri com escárnio te vendo dançar, rindo de mim mesma por um dia ter dito que amava amar. O amor sempre foi roleta russa, e pra quem já tinha sido baleada tantas vezes, eu já sabia exatamente a hora do tiro.

Levantei e fui embora, deixando para trás você, o forró e o dedo no gatilho.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Amarelo


O sol pintava o céu no final da tarde quando Amanda saiu de casa. Fazia o frio característico do inverno na sua cidadezinha e ela não podia perder a chance de aquecer o corpo. Sentou-se na grama e sentiu os últimos raios luminosos daquele dia tocarem seu rosto. Adorava a sensação de ter a pele quente, ao passo que seus olhos inundavam-se com a visão das nuvens multicoloridas; o jeito que o sol sumindo no horizonte levava com ele todos os seus pensamentos ruins. 

Não era uma pessoa triste. Longe disso. Amanda transpirava alegria e disposição, não media esforços para ajudar alguém e não acreditava em "não consigo". Era o tipo de pessoa que colocava amor em tudo que tocava. Cozinhava, escrevia, falava, trabalhava, cuidava... Tudo com o coração. Uma pena que esse tenha se danificado um pouquinho na viagem da vida. Uma pena que alguém tão brilhante precisasse lidar com as dificuldades do fim. 

Apesar disso, ela nunca reclamava. Escondia suas cicatrizes nas mangas das suas muitas blusas de frio e vestia seu melhor sorriso todos os dias. Ria, fazia, acontecia e o mundo parecia girar ao seu redor; quase como se fôssemos girassóis e ela mesma tivesse roubado o brilho do astro para si. Mas era só chegar em casa e tirar as camadas de roupa que as memórias voltavam. Despia-se do jeito desastradamente lindo, da felicidade, da fala corrida e enérgica. Restava o cansaço do dia e do coração.

Porém Amanda nunca desistia. Sabia que o tempo curava tudo.

Amanda era linda. Em todas a sua perfeita imperfeição. Em toda a sua força. E às 17h30, Amanda era uma pessoa mais feliz. 


domingo, 21 de junho de 2015

E ponto.


É da natureza humana evitar os finais. O fim precede o vazio. Aquele sentimento esquisito quando você termina um livro ou uma série muito boa. Quando você termina um trabalho que passou dias fazendo. Quando você vê alguém que sempre na sua vida partir. Tentamos tanto postergar as coisas que nos machucamos por causa disso. É difícil encarar que muitas vezes é melhor ficarmos com nós mesmos, em vez de nos quebramos em vários pedacinhos para nos encaixarmos em algo. Leva um tempo até nos acostumarmos e, nos casos mais extremos, esse tempo nunca chega. 

É particularmente difícil para mim, lidar com essa efemeridade da vida. Sou aquele tipo de pessoa que se agarra com toda força nos momentos bons, na esperança de que eles aceitem mais uma xícara de chá antes de se retirarem. A imprevisibilidade da mudança é assustadora. Nos últimos tempos eu tenho evitado ficar sozinha comigo mesma, porque quase sempre me pego encarando as paredes e pensando nos "se". Se eu tivesse feito isso, aquilo, aquilo outro. Tenho procurado me manter constantemente bêbada. Embriagada de certeza. Inebriada de coragem. Pra ver se consigo espantar o medo de ficar sozinha. Pra ver se consigo encarar essa falta de respostas.

Estamos destinados a ficarmos sempre sozinhos? Qual é o sentindo de viver? Se tudo é passageiro, onde é que fica o ponto final?

domingo, 31 de maio de 2015

Código Morse

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Ali no alto ela conseguia respirar. Inalava o vento frio com tanto prazer que nem se importava com o ardor que ele provocava nos pulmões. Cruzou os braços sobre o peito e olhou para baixo. Quinze andares. Algumas formigas caminhavam rapidamente pela fina rua, apressadas para chegar em algum lugar. Uma ruga surgiu entre as sobrancelhas grossas e um riso debochado escapou da boca cor de uva. As pessoas eram treinadas para continuar caminhando, por mais que o destino final fosse incerto. Ela mesma se considerava uma andarilha nata; daquelas que sempre tem uma mochila nas costas e os pés prontos para pegar o próximo desvio. A vida previsível era necessária, mas nada era mais emocionante do que as bifurcações. 

Seu coração angustiado batia acelerado no peito, como um passáro engaiolado procurando a saída. O que estaria lhe esperando? Milhões de pessoas naquela pequena cidade grande, onde cada esquina virada criava incontáveis possibilidades. Abriu os braços o máximo que conseguia e ficou na ponta dos pés. Fechou os olhos e ouviu a canção do silêncio. Sentia frio na nuca exposta. Sentia o corpo lento, como se estivesse imerso em água. Podia sentir o palpitar do sangue fluindo nas pontas dos dedos. Era um sinal. Estava viva. Isso era o que importava. 

Abriu os olhos, voltando para a realidade e desceu do parapeito. Deu uma última olhada no horizonte antes de descer as escadas de incêndio. As luzes da cidade grande piscavam em código morse. "Seja livre", elas diziam. "O mundo é muito pequeno pra sua vontade de viver".