domingo, 24 de maio de 2015

Sobre o Mar que existe entre esse Elo.


Eu nem vi, Alice. Quando você chegou de mansinho e fez da minha vida um ponto de luz e caos. Com seus mil sentimentos não resolvidos disfarçados de egocentrismos. Com suas piadas negras e suas risadas fora de hora. Com seu gosto musical no mínimo diferente e sua frustração por não saber cantar. Com sua vontade de ser útil. Com sua máscara de ser fútil. Com seu jeito sutil de ser ninguém mais do que você mesma.

Eu nem vi, Alice. Quando você simplesmente parou de ser acaso e se tornou rotina. Quando você deixou de ser sozinha e passou a ser preocupação. Quando você deixou de ser você e se tornou eu. Quando você deixou de ser eu e se tornou eles. 

Eu nem vi, Alice. O quanto seu cabelo cresceu e suas barreiras diminuíram. O quanto você ficou mais bonita aos olhos dos outros. O quanto eu me assustei com a rapidez das coisas. O quanto eu me deixei passear por outros cantos. O quanto você cresceu nesse meio tempo. O quanto você se tornou aventura. O quanto eu virei monotonia.

Nem as estrelas cadentes e os signos do zodíaco poderiam prever isso, então eu nem vi, Alice. 
Eu nem vi Alice. Eu via Alice. 

sábado, 16 de maio de 2015

TOC: Te Observo com Carinho

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O som das chaves sendo colocadas na mesa quebrou o silêncio do apartamento. Já passava das oito mas aquilo era considerado cedo para ela. Ouvi o som agudo dos tênis no assoalho e fiz o trajeto até o quarto do lado mentalmente. Já tinha visto aquela cena tantas vezes que não precisava estar lá para saber que ela estava colocando a bolsa na cadeira de sempre, tinha passado a mão pela roupa de cama para tirar qualquer amassado sobrevivente e pendurado o moletom impecavelmente branco no cabideiro. As chaves estavam no criado mudo perto da porta, do lado dos controles da televisão e da sky, nessa ordem. Os bancos da mesa estavam todos perfeitamente alinhados e os quadros na parede marrom desconheciam o que era estarem tortos. O barulho de água caindo denunciava que ela já tinha entrado no banho e era minha deixa para sair do meu canto. 

Caminhei silenciosamente até a cozinha e, enquanto minhas mãos trabalhavam, eu pensava no tanto que aquele lugar era cheio dela. Os livros na estante, organizados por escala de cor, denunciavam todo o seu amor por design. O quadrinho negro na porta da geladeira tinha uma checklist perfeitamente desenhada do que faltava comprar. O capacho da porta dizia "enjoy" e o resto da casa completava educamente, "please". Doses iguais de organização, aconchego e estilo. O conhecido arranhar da vitrola no vinil me despertou dos devaneios e segui de volta para o corredor. 

A porta estava aberta, como se soubesse que eu chegaria. Parei na ali, sem falar nada e a observei, compenetrada com alguma coisa na tela do notebook. Ela costumava usar fones de ouvido mas desde que tínhamos achado aquela vitrola no centro, preferia tirar poeira de alguns discos antigos que comprava eventualmente. Talvez ela só estivesse fingindo não me ver ali, talvez estivesse ocupada demais para me falar qualquer coisa; não me importava. Entrei calmamente, coloquei a caneca de chocolate quente e o prato com um sanduíche na mesa, dando-lhe um beijo na cabeça. 

As olheiras lhe davam um aspecto abatido, cutucando meu instinto de cuidado, porém eu sabia que aquilo era só reflexo de todo o seu esforço. Ela era daquelas pessoas que davam o melhor de si sempre, perfeccionista até onde não podia mais, extramente metódica... Para muita gente, defeitos. Aos meus olhos, qualidades. Passei as mãos pelos cabelos curtos uma última vez e virei as costas. Ela não era de muitas palavras, quase nunca falava sobre si. Sorte dela que eu sempre observei tudo com muita atenção. Eu não conhecia nem um terço daquela mente brilhante, mas sabia muito mais do que ela imaginava. Que continuasse assim.

sábado, 9 de maio de 2015

180

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Abriu os olhos com certo esforço. A pouca luminosidade no quarto lhe agradava; Amenizava o ardor febril das vistas. A garganta lhe machucava até a alma, se é que havia resquício de uma confinada naquele corpo. Moveu-se levemente, fazendo menção de levantar e sentiu os reflexos da noite anterior. A dor veio à tona sem ter dó nem pierdade, percorrendo seu tronco e irradiando pelos membros. Sua cabeça latejava, completando o quadro deplorável em que se encontrava. Não sabia como tinha conseguido chegar em casa, mas agradeceu silenciosamente por ter acordado na própria cama. Lutou contra sua própria vontade de permanecer imóvel e se levantou. Precisava examinar os estragos. O espelho mostrava uma figura alta e esguia, até bonita se não fossem os hamatomas nos braços e pernas. A camisa escondia uma mancha enorme nas costelas, que parecia um bom motivo para uma ida ao hospital. O rosto antes belo, estava encovado. Os olhos vazios eram emoldurados pelas olheiras fundas. Se não fosse pelo ardor nos pulmões, provocados pela respiração entrecortada, ela teria certeza de que estava morta. Morta por dentro e por fora. Uma batida na porta lhe fez estremecer; A voz masculina do outro lado lhe perguntava se estava bem. Pedia desculpas. Pedia para conversar. Seu coração acelerado bombeava sangue rapidamente pelo corpo frágil, provocando ainda mais dor. Dor física e mental. Ela voltou para a cama e cobriu-se até a cabeça, rezando para Deus ou qualquer um que pudesse ouvir. "Queria estar morta", foi seu último pensamento antes da porta ser arrombada com força. 

sábado, 2 de maio de 2015

Cama de gato

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Era só mais uma noite comum. Buteco, cerveja, alguns bons amigos e qualquer música engraçada que pudessem cantar junto. Seria comum se não fosse Alice. Seria comum se não fosse Marcelo. De vez em nunca a vida se encarrega de fazer cama de gato com as linhas do destino e às vezes, só às vezes, pessoas erradas se encontram e dão certo.

Alice gostava do jeito descontraído e meigo de Marcelo. De quem observa demais e sabia tudo sobre ela, antes mesmo dela conseguir reunir coragem para contar. Gostava dos cabelos cacheados, do olhar brilhante e do sorriso de quem estava sempre pensando em aprontar algo. Era fascinada pelo tato e empatia que ele conseguia ter com os outros, pela capacidade do rapaz de fazer o bem sem olhar a quem. Gostava dos carinhos e dos abraços repentinos e, por mais que não soubesse demonstrar tanto afeto, ela retribuía sem pensar duas vezes.

Marcelo era apaixonado pelo espírito livre e desapegado de Alice. De como ela era ácida e sarcástica na medida certa. Gostava do cheiro que impregnava as roupas sempre escuras da moça, quase como se aquilo fosse sua marca registrada. Sabia que por trás de toda aquela fachada durona existia alguém muito mais doce e insegura, pedindo todo o cuidado do mundo só pra ela. Achava engraçada aquela mania de grandeza e tomou a liberdade de enaltecer ainda mais as inúmeras qualidades dela. Gostava daquela cumplicidade que existia entre eles, das risadas que dava daquelas piadas de humor negro, do sorriso aberto que recebia sempre que comentava como ela estava bonita.

Seria uma noite comum se Alice não tivesse deixado ele entrar. Seria uma noite comum se Marcelo não tivesse sido intrusivo. Eles eram assim; Uma mistura que tinha tudo para ser ruim, mas era boa. Era fácil. Era simples. Era muito boa. 

sábado, 18 de abril de 2015

Inferno Astral

https://www.youtube.com/watch?v=CVUOTzoVeZA
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Eu acho que eu sufoco as pessoas. O tempo todo. E eu acho que estou começando a me sufocar por pensar tanto nisso. Esse é o problema de ser tão intensa; Se eu sofro, eu fico em carne viva. Se eu me sinto feliz, eu irradio. Se eu gosto, eu amo. É cansativo. Engraçado né? Cansar de ser você mesmo e não poder fazer nada sobre, afinal, como é que se foge de quem se é? E antes fosse só isso. Eu também tinha que ser absurdamente insegura com tudo o que eu faço. Eu também tinha que ter baixa autoestima. Eu também tinha que ser extremamente aberta pro mundo. Como é que mistura tudo isso numa pessoa só, Deus? Como é que eu lido com isso? Não sei ficar calada, não sei falar baixo, não sei ser discreta, não sei não me ofender com pequenas coisas, não sei conversar olhando no olho, não sei... Acho que eu tenho tanto medo de não ser aceita, de ficar sozinha, que eu acabo me desdobrando em mil pedaços pra agradar todo mundo. Eu acabo me importando com o que dizem e desdizem de mim.

Eu queria ter um botão de desligar. Um modo soneca de mim mesma. Onde eu simplesmente paro de sentir tudo por um tempo e faço as coisas no automático. Onde eu paro de pensar como as pessoas me veem todos os dias. Onde eu paro de achar problemas em tudo o que eu faço, digo, penso, sou. Fico imaginando que por trás de todo elogio que eu faço, existe um "me enxerga também". Por trás de cada abraço que eu dou, tem um "cuida de mim, por favor". Não sou uma pessoa nada difícil de se lidar; Qualquer atenção e reconhecimento automaticamente me desarmam e me fazem desmanchar. Acho que eu já estou tão puída que agradeço quando alguém me tira do guarda-roupa e me leva pra dar uma voltinha. Acho que já me conformei tanto com a vida que aprendi a ser feliz com a felicidade dos outros em vez de buscar a minha própria. Acho que eu tento sempre ser uma estrela, mas acabo sendo um cometa. 

Ser estrela, ter luz própria, ser memorável, presente, quente... Ser cometa, ser passageiro, ser sozinho, frio. Começo a pensar que tudo o que acho que sou na verdade é quem eu queria ser. Começo a sentir a solidão chegando, pouco a pouco. Eu abro a porta, faço sala, sirvo um cafézinho e ela vai ficando, vai ficando, vai ficando. E eu vou sumindo cada vez mais, dentro de mim mesma. Afundando em todos esses pensamentos que escaparam da porta trancada no fundo da minha cabeça, sendo ameçada pelos meus próprios monstros. Falta muito para chegar naquela parte do filme em que aparece alguém que salva os inocentes e coloca tudo no lugar? E como faz quando o protagonista percebe que é inocente, herói e vilão ao mesmo tempo? O herói mata o vilão e salva o inocente. O herói mata a si mesmo e leva junto o vilão e o inocente. O herói vive junto com o vilão e o inocente. O herói protege o inocente do vilão. Esse filme já tem quase vinte anos e no momento os três brigam e eu assisto. Assisto e sinto tudo pegar fogo dentro de mim. Com essa crise de água talvez demore pra eu conseguir me apagar. Me desapegar. 

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Eu comigo mesma


Olhe, não fique assim não, vai passar. Eu sei que dói. É horrível. Eu sei que você acha que eu não sei o que estou falando, mas eu sei. Eu sei que parece que você não vai aguentar, mas aguenta. Sei que parece que vai explodir, mas não explode. Parece que você vai se desmanchar em lágrimas, mas não vai. Sei que dá vontade de abrir um zíper nas costas e sair do corpo, porque dentro da gente, nesse momento, não é um bom lugar para se estar. Parece que nada vai mudar e que todos te traíram, mas repare com mais atenção, alguém ainda olha por você. Eu sei que parece ruim, mas vai melhorar. No final tudo fica bem. Você pode estar machucado agora, mas no futuro será só uma cicatriz, daquelas que você olha, se lembra da experiência e percebe o quanto teve sorte, que pessoas passam por coisas piores todos os dias. Não sofra em excesso e não torne as coisas mais difíceis do que realmente são. Dor é assim mesmo, arde, depois passa. Que bom. Aliás, a vida é assim: arde, depois passa. Que pena. A gente acha que não vai agüentar, mas agüenta

segunda-feira, 30 de março de 2015

Vida que segue

Eu ando por aí
contando as horas,
contando os passos,
contando histórias.

Eu ando por aí
colecionando cores
colecionando sorrisos,
colecionando amores.

Eu ando por aí
sentindo tudo,
sentindo muito,
sentindo mudo.

Eu ando por aí
fingindo estar,
fingindo bem,
fingindo sarar.

Eu ando por aí
tentando,
caminhando,
desmoronando.