sábado, 2 de maio de 2015

Cama de gato

Clique pra ler com música
Era só mais uma noite comum. Buteco, cerveja, alguns bons amigos e qualquer música engraçada que pudessem cantar junto. Seria comum se não fosse Alice. Seria comum se não fosse Marcelo. De vez em nunca a vida se encarrega de fazer cama de gato com as linhas do destino e às vezes, só às vezes, pessoas erradas se encontram e dão certo.

Alice gostava do jeito descontraído e meigo de Marcelo. De quem observa demais e sabia tudo sobre ela, antes mesmo dela conseguir reunir coragem para contar. Gostava dos cabelos cacheados, do olhar brilhante e do sorriso de quem estava sempre pensando em aprontar algo. Era fascinada pelo tato e empatia que ele conseguia ter com os outros, pela capacidade do rapaz de fazer o bem sem olhar a quem. Gostava dos carinhos e dos abraços repentinos e, por mais que não soubesse demonstrar tanto afeto, ela retribuía sem pensar duas vezes.

Marcelo era apaixonado pelo espírito livre e desapegado de Alice. De como ela era ácida e sarcástica na medida certa. Gostava do cheiro que impregnava as roupas sempre escuras da moça, quase como se aquilo fosse sua marca registrada. Sabia que por trás de toda aquela fachada durona existia alguém muito mais doce e insegura, pedindo todo o cuidado do mundo só pra ela. Achava engraçada aquela mania de grandeza e tomou a liberdade de enaltecer ainda mais as inúmeras qualidades dela. Gostava daquela cumplicidade que existia entre eles, das risadas que dava daquelas piadas de humor negro, do sorriso aberto que recebia sempre que comentava como ela estava bonita.

Seria uma noite comum se Alice não tivesse deixado ele entrar. Seria uma noite comum se Marcelo não tivesse sido intrusivo. Eles eram assim; Uma mistura que tinha tudo para ser ruim, mas era boa. Era fácil. Era simples. Era muito boa. 

sábado, 18 de abril de 2015

Inferno Astral

https://www.youtube.com/watch?v=CVUOTzoVeZA
Clique pra ler com música
Eu acho que eu sufoco as pessoas. O tempo todo. E eu acho que estou começando a me sufocar por pensar tanto nisso. Esse é o problema de ser tão intensa; Se eu sofro, eu fico em carne viva. Se eu me sinto feliz, eu irradio. Se eu gosto, eu amo. É cansativo. Engraçado né? Cansar de ser você mesmo e não poder fazer nada sobre, afinal, como é que se foge de quem se é? E antes fosse só isso. Eu também tinha que ser absurdamente insegura com tudo o que eu faço. Eu também tinha que ter baixa autoestima. Eu também tinha que ser extremamente aberta pro mundo. Como é que mistura tudo isso numa pessoa só, Deus? Como é que eu lido com isso? Não sei ficar calada, não sei falar baixo, não sei ser discreta, não sei não me ofender com pequenas coisas, não sei conversar olhando no olho, não sei... Acho que eu tenho tanto medo de não ser aceita, de ficar sozinha, que eu acabo me desdobrando em mil pedaços pra agradar todo mundo. Eu acabo me importando com o que dizem e desdizem de mim.

Eu queria ter um botão de desligar. Um modo soneca de mim mesma. Onde eu simplesmente paro de sentir tudo por um tempo e faço as coisas no automático. Onde eu paro de pensar como as pessoas me veem todos os dias. Onde eu paro de achar problemas em tudo o que eu faço, digo, penso, sou. Fico imaginando que por trás de todo elogio que eu faço, existe um "me enxerga também". Por trás de cada abraço que eu dou, tem um "cuida de mim, por favor". Não sou uma pessoa nada difícil de se lidar; Qualquer atenção e reconhecimento automaticamente me desarmam e me fazem desmanchar. Acho que eu já estou tão puída que agradeço quando alguém me tira do guarda-roupa e me leva pra dar uma voltinha. Acho que já me conformei tanto com a vida que aprendi a ser feliz com a felicidade dos outros em vez de buscar a minha própria. Acho que eu tento sempre ser uma estrela, mas acabo sendo um cometa. 

Ser estrela, ter luz própria, ser memorável, presente, quente... Ser cometa, ser passageiro, ser sozinho, frio. Começo a pensar que tudo o que acho que sou na verdade é quem eu queria ser. Começo a sentir a solidão chegando, pouco a pouco. Eu abro a porta, faço sala, sirvo um cafézinho e ela vai ficando, vai ficando, vai ficando. E eu vou sumindo cada vez mais, dentro de mim mesma. Afundando em todos esses pensamentos que escaparam da porta trancada no fundo da minha cabeça, sendo ameçada pelos meus próprios monstros. Falta muito para chegar naquela parte do filme em que aparece alguém que salva os inocentes e coloca tudo no lugar? E como faz quando o protagonista percebe que é inocente, herói e vilão ao mesmo tempo? O herói mata o vilão e salva o inocente. O herói mata a si mesmo e leva junto o vilão e o inocente. O herói vive junto com o vilão e o inocente. O herói protege o inocente do vilão. Esse filme já tem quase vinte anos e no momento os três brigam e eu assisto. Assisto e sinto tudo pegar fogo dentro de mim. Com essa crise de água talvez demore pra eu conseguir me apagar. Me desapegar. 

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Eu comigo mesma


Olhe, não fique assim não, vai passar. Eu sei que dói. É horrível. Eu sei que você acha que eu não sei o que estou falando, mas eu sei. Eu sei que parece que você não vai aguentar, mas aguenta. Sei que parece que vai explodir, mas não explode. Parece que você vai se desmanchar em lágrimas, mas não vai. Sei que dá vontade de abrir um zíper nas costas e sair do corpo, porque dentro da gente, nesse momento, não é um bom lugar para se estar. Parece que nada vai mudar e que todos te traíram, mas repare com mais atenção, alguém ainda olha por você. Eu sei que parece ruim, mas vai melhorar. No final tudo fica bem. Você pode estar machucado agora, mas no futuro será só uma cicatriz, daquelas que você olha, se lembra da experiência e percebe o quanto teve sorte, que pessoas passam por coisas piores todos os dias. Não sofra em excesso e não torne as coisas mais difíceis do que realmente são. Dor é assim mesmo, arde, depois passa. Que bom. Aliás, a vida é assim: arde, depois passa. Que pena. A gente acha que não vai agüentar, mas agüenta

segunda-feira, 30 de março de 2015

Vida que segue

Eu ando por aí
contando as horas,
contando os passos,
contando histórias.

Eu ando por aí
colecionando cores
colecionando sorrisos,
colecionando amores.

Eu ando por aí
sentindo tudo,
sentindo muito,
sentindo mudo.

Eu ando por aí
fingindo estar,
fingindo bem,
fingindo sarar.

Eu ando por aí
tentando,
caminhando,
desmoronando.

domingo, 29 de março de 2015

Era tudo vermelho


Existe uma garota. Que atravessa a minha rua todos os dias. Ela desfila em toda a sua elegância vermelha, com seus pés pequenos e apressados, sempre tão focados em chegar em algum lugar. Algum lugar desconhecido até pra ela. Ela veste o coração debaixo de vários moletons quando o clima é ameno, torcendo para que ninguém veja o quão grande ele é. Mas eu vejo. Ela resmunga sozinha sobre aleatoriedades da vida de vez em quando, esperando que ninguém esteja prestando atenção. Mas eu presto. Apenas querendo compartilhar todo aquele mundo abstrato, escondido dentro daquela mente brilhante. Ela fala sobre poesia e arte como se fosse gente grande, gente velha, mas quando ri... Ah, quando ela ri é como se tirasse dez anos das costas. Tem ar de independência, de bem resolvida, mas eu sei que tudo o que ela quer é alguém ao seu lado. Alguém que segure aquela mão pequena e caminhe pelas linhas tortas da vida. Alguém pra tomar um café numa tarde de sexta, que não se importe em ouvir suas loucuras, em rir de si mesmo, que goste do humor ácido e inteligente que ela tanto se orgulha. Ela mancha a borda da xícara de vermelho, a cor da paixão. Da paixão que ela tem por tudo o que faz. Da paixão que coloca em tudo o que toca. Cor do amor que guarda para si ou despeja nas páginas de qualquer caderno. Do amor que ela dá e não recebe em troca. Mas tá tudo bem. É o que eu digo para mim mesmo todas as vezes que a assisto passar pela minha rua. Eu diria para ela também, mas ela sabe. Ela tem cara de que sempre sabe das coisas. Ela sabe que um dia vai parar e me perguntar o que eu tanto olho. Ela sabe que vai bater na minha porta e eu vou estar com café fresco esperando por ela e por todos os seus sonhos escondidos no bolso. Ela sabe, ela sempre sabe.

sexta-feira, 13 de março de 2015

9 de março de 2015


Passei bastante tempo tentando absorver e entender o porquê desse dia ter mexido tanto comigo. Se cheguei em algum lugar? Não. Quem sabe no fim dessas linhas eu compreenda. Nenhuma dor de garganta se compara à minha agonia em me ver sozinha. Admito; Solidão é algo que eu nunca me senti confortável em vestir. É aquele meu short apertado na cintura que só uso quando não tem mais roupa limpa e me faz andar toda quadrada. Todavia, na lavanderia da minha vida faltava um tempo bom pra secar meus vestidos favoritos. Passei alguns meses tentando achar um lugar ao sol onde eu pudesse me sentir feliz (afinal, quem não gosta de roupas secas e limpas?) mas a época de chuva em Belo Horizonte estava se alongando demais. Às vezes aparecia uma luz entre nuvens pra me deixar um pouco mais aliviada, porém todo final de tarde era escuro, quase tanto quando o meu café. Não lembro quando desisti de estender roupas no varal, só me recordo do cesto que ficava cada vez mais cheio. Cheio de coisas que precisavam ser compartilhadas. Recordo de uma certa conversa com uma budista que, voluntariamente, quis examinar meus chakras: "Seu canal comunicativo é muito sensível, você tem necessidade de falar as coisas", ela disse. "Dor de garganta é um sinal que seu canal tá desequilibrado". Na época não fez muito sentido e não acreditei em nada daquilo, mas quando cheguei em casa hoje não sentia mais dor e engolia com facilidade. Entretanto o meu maior espanto foi encontrar finalmente um cesto de roupas secas no meu quarto.

Foi um belo dia de sol, mas tudo o que eu precisava mesmo era de um chá das cinco.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Distorção

A noite já caía e ela ainda estava sentada no mesmo lugar. Num pequeno café, numa rua movimentada, num bairro que era muito distante daquele em que atualmente residia. Já era a terceira xícara de cappuccino que tomava desde que tinha chegado ali e os garçons já não lhe perguntavam mais se ela aguardava alguém. Sabiam quem a moça estava esperando, aliás, quem ela esperava todos os dias. Do outro lado da pista jazia uma casinha pequena, cheia de memórias mortas, porém longe de estarem enterradas. A observadora sentava-se ali no mesmo horário, durante todos os dias da semana e remoía aquilo que um dia fora amor dentro do seu peito. Seus olhos cansados e doloridos percorriam toda a fachada da casa que ela havia ajudado a construir, que eles tinham construído juntos. Ainda era vívido em sua memória o dia em que, enquanto ela pintava as paredes com um grande rolo e ria por não ser alta o suficiente para alcançar as partes perto do telhado, ele consertava a cerca que já estava há muito desgastada pelo tempo. As lembranças daqueles dias felizes só faziam com que o emaranhado de sentimentos dentro dela se misturasse ainda mais. Já havia lido em alguns artigos de psicólogos que certos traumas eram tão impactantes que as pessoas envolvidas acabam inventando seu próprio mundo para conseguir lidar com tudo, mas achava que era tão ridiculamente improvável... “Como alguém confunde realidade com imaginação ao ponto de não conseguir discernir um do outro?”, era o que se perguntava, sempre de forma desdenhosa. Agora, sentada ali, vislumbrando lapsos do seu passado, a moça começava a acreditar no que todos aqueles artigos falavam. Não conseguia mais entender como seu amor, que era terra fértil para plantio das bases sólidas do casamento, tinha subitamente se transformado naquilo. “Naquilo”, porque não sabia como nomear o sentimento doentio que lhe fazia observar a vida do ex-marido diariamente e torcer para que ele abandonasse a atual noiva, tão cruelmente como fizera consigo. O sentimento que, por pior que fosse, era melhor do que aceitar a verdade: Ela perdera tudo e ninguém além dela mesma era culpada. Por mais que gostasse de dizer de boa cheia que o ex-marido havia lhe traído, a mulher sabia que ele tinha sido honesto. Por mais que buscasse toda e qualquer oportunidade de difamá-lo, uma pontinha dentro de si sabia que ela estava se enganando. Todavia, a realidade era algo que não se permitia viver. 
Sua rotina era a mesma: Trabalhava apenas para pagar as contas, pois perdera todo o prazer em escrever sua coluna diária no jornal da cidade. Comia qualquer coisa, porém por necessidade e não por vontade. Por fim, batia seu ponto naquele mesmo café e esperava até que o casal protagonista da sua vida chegasse em casa, naquela que um dia fora sua. Quando isso acontecia, a moça simplesmente se levantava e pegava um ônibus para seu apartamento apertado no bairro periférico da cidade. Enganados aqueles que pensavam que não existia a vontade de fazer algo dentro dela; Já havia feito muito, tentando recuperar sua vida antiga, coisa que resultou em um mandado judicial. Ela não podia chegar perto deles, ou seria presa. E amor à sua pseudoliberdade era algo que ainda lhe restava. Chegou em casa naquela noite e pôs-se a admirar o estado que sua vida estava. Morava muito mal. Comia muito mal. Diversão naquela altura era uma palavra completamente desconhecida. Andou até o pequeno espelho manchado que ficava no banheiro e deu uma olhada em si mesma.
Os cabelos brancos precisavam ser pintados com urgência, a pele estava flácida, pois havia perdido muito peso num curto período de tempo. Os seus olhos, antes brilhantes, estavam opacos e emoldurados por olheiras fundas. Tocou as rugas precoces na sua testa e suas unhas brutalmente roídas chamaram sua atenção. A dor incomodava no início, porém não sentia mais nada e nem notava quando as roía. Despiu-se e entrou no chuveiro gelado. O contato da água com a pele quente não lhe provocou arrepios; Era difícil ter qualquer estímulo daquele tipo já que se considerava morta por dentro. Limpou-se mecanicamente, enxugou-se, vestiu a roupa menos suja que tinha no chão do seu quarto e deitou-se. A torrente de pensamentos e lembranças de sempre nunca a deixavam em paz e eram raras as noites que realmente conseguia dormir. No entanto, naquela em especial, a mulher chorou. Faziam dias desde a última vez que isso acontecera. Chorou violentamente, sendo sufocada pelas lágrimas pesadas e salgadas que trasbordavam da sua alma retorcida e doída. A foto na sua cabeceira mostrava uma versão sua de meses atrás. Sorridente, feliz, brincalhona. O seu eu atual tinha se perdido completamente nos caminhos tortuosos da vida e talvez, só talvez, aquele último choro mostrava que ela finalmente tinha enxergado o monstro que havia se tornado. De fato, a linha entre amor e ódio é muito tênue e às vezes o fim de linha era a insanidade.